Falta a liga

Poucos povos têm, mais que o Brasil, uma base necessária para construir nação próspera, justa, livre e sustentável.
Apesar disso, poucos outros povos estão tão perdidos, sem coesão e sem rumo.
Estamos divididos, desagregados socialmente; e ficando atrasados, econômica e civilizatoriamente.

O Brasil está sem a liga que transforma uma população em uma nação: a educação de seu povo. Falta-nos até mesmo o sentimento da importância desta liga.

Em uma entrevista em 26/10/12, o campeão mundial [de futebol] Raí foi perguntado sobre o que mais o tinha impressionado durante seu tempo na França, jogando no Paris Saint Germain.
Ele respondeu: “Minha filha ia à mesma escola que a filha da minha empregada” — uma escola com qualidade igual às melhores do mundo. Graças a isso, a França tem liga há mais de 100 anos. Seu povo, apesar de desigualdades e discordâncias, tem coesão social no presente e rumo para o progresso no futuro.

Até 1861, a Itália não existia como nação. O território onde hoje se encontra era povoado por grupos sociais organizados em pequenos principados, cada qual com seu idioma, seus costumes, suas características específicas.
A unificação foi o resultado da vontade e competência política de alguns estadistas, mas a liga que fabricou o país foi a escola com qualidade e igual para todos, unificando o idioma, criando os sentimentos pátrios onde, antes, havia uma constelação de pequenas nações.

Quando o estádio Beira Rio foi inaugurado, em Porto Alegre, em 1969, as arquibancadas mais baratas, onde ficavam os torcedores sem dinheiro, eram chamadas de Coreia, uma referência à pobreza que então caracterizava a recém-criada República da Coreia do Sul.
Cinquenta anos depois, este símbolo da pobreza e atraso [da Coreia do Sul] tem hoje renda per capita igual às maiores do mundo; o país é não apenas rico, produz o que há de mais criativo, competitivo e eficiente entre todas as nações.
A liga foi a educação, por meio de escola de qualidade para todas suas crianças e educação continuada para todos os seus jovens e adultos.

A mesma observação serve para todos os países que têm coesão e rumo: criaram, sistematizaram e mantiveram escola de qualidade e igual para todos ao longo de décadas.
Nenhuma criança deixada para trás, todos os cérebros aproveitados, desenvolvidos e bem formados, independentemente da renda e da cidade onde mora.
Essa liga é necessária e possível de se fazer no Brasil.
Nos últimos anos, dei a minha contribuição ao aprovar algumas leis que serviram como ingredientes para essa liga: a Lei nº 11.738/2008, que estabeleceu um piso nacional para os salários de todos os professores; a Lei nº 11.700/2008, que obriga cada governo municipal a assegurar vaga para as crianças desde os quatro anos; a Lei nº 12.061/2009, que obriga o governo estadual a oferecer vaga para todo jovem durante o ensino médio.
São passos tímidos, que exigem saltos maiores, como fizeram os países que produziram as ligas que os transformaram em nações coesas e com rumo.
Para ter essa liga, o Brasil ainda precisa aprovar a PEC 32/2013, de minha autoria, há cinco anos em discussão, que funcionaria como uma espécie de Lei Áurea da Educação, ao atribuir ao Brasil, responsabilizando a União, o cuidado com a educação das crianças brasileiras.
Por essa lei, as escolas públicas do ensino básico seriam federais; os professores teriam uma carreira federal, com os melhores salários do setor público, selecionados com muito rigor e avaliados ao longo de suas atividades; os prédios escolares teriam melhor qualidade em suas instalações, com a máxima modernidade nos equipamentos pedagógicos; e todos os alunos estudariam em horário integral.
Respeitando a descentralização gerencial e a liberdade pedagógica, a federalização daria as bases para a qualidade e a igualdade no acesso à educação.
Sua implantação em todo o país levaria entre 20 a 30 anos. Por isso, ela precisa ser complementada pelo PLS 337/2016 — e tantos outros bons projetos em tramitação no Congresso —, pelo qual o governo federal adotaria de imediato o sistema escolar nas cidades mais pobres ou com os piores índices educacionais. Esperemos que os novos membros do Congresso deem continuidade ao esforço dos que saem e consigam aprovar essas leis e construam a liga de que o Brasil precisa.

A escola onde estudava a filha de Raí e a de sua empregada deveria ter mais de 100 anos, desde que um professor-político, de nome Jules Ferry começou a revolução educacional da França, implantando a liga que transformou a população francesa em um grande povo e seu país em uma grande nação.

Autor: Prof.Cristóvam Buarque

O texto original foi publicado no jornal Correio Baziliense, em 23/10/2018.
Quem é Cristóvam Buarque?
Cristovam Ricardo Cavalcanti Buarque, de 74 anos, nasceu,  em 20/02/1944, no Recife (PE), mas reside em Brasília desde 1979. É engenheiro mecânico pela Universidade Federal de Pernambuco e tem doutorado em Economia pela Universidade de Sorbonne (França). Trabalhou no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) entre 1973 e 1979, tendo ocupado postos no Equador, Honduras e EUA. De volta ao Brasil, passou a dar aulas na Universidade de Brasília. Foi reitor da UnB de 1985 a 1989. Filiou-se ao PT em 1990, sigla pela qual concorreu e venceu a eleição para o governo do Distrito Federal em 1995. Lá, criou o Bolsa-Escola, o programa de transferência de renda que garantia um salário para cada criança matriculada no colégio e originou o Bolsa-Família. Em 2002, foi eleito ao Senado e logo depois assumiu o Ministério da Educação no primeiro governo Lula. Deixou a Esplanada dos Ministérios e o PT após divergências e filiou-se ao PDT. Pelo novo partido, disputou a Presidência da República em 2006 com uma plataforma voltada à educação, mas recebeu apenas 2,6 milhões de votos. Foi reeleito senador nas eleições de 2010 pelo Distrito Federal e desde 2016 está filiado ao PPS – Partido Popular Socialista. Concorreu para o cargo de senador, na eleição em 2018, mas ficou em 3º lugar, somando 317.778 votos, equivalendo a 12,06% dos votos.

 

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