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“A arte da vida” não é um
livro de autoajuda como apressadamente se poderia concluir a partir da sugestão
do título. Trata-se de uma viagem irônica que inclui na passagem, diálogos
inesperados com autores que marcaram a história do pensamento humano. No
pretexto da busca pela felicidade num tempo líquido, entre outros autores,
Bauman garimpa entre Friedrich Nietzsche e Emmanuel Levinas, um sentido para a
existência humana (BAUMAN, Zygmunt. A arte da vida. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Ed., 2009).
A estratégia de tornar as
pessoas mais felizes aumentando suas rendas aparentemente não funciona. Por
outro lado, um indicador social que continua crescendo de forma espetacular
paralelamente ao nível de riqueza é a taxa de criminalidade. Fica um tanto
difícil associar o PNB com um índice que meça o crescimento da felicidade. O
contrário também seria aceitável. Recuperando um discurso do candidato Robert
Kennedy à presidência dos Estados Unidos em 1968, Bauman destaca: “o PNB mede
tudo, menos o que faz a vida valer a pena”. Robert Kennedy não chegaria à
presidência dos Estados Unidos. Poucas semanas depois de ter proferido o
discurso Kennedy foi assassinado.
As pessoas normalmente
concordam que cerca de metade dos bens cruciais para a felicidade humana não tem
preço de mercado e nem podem ser adquiridos em lojas como os prazeres da vida
doméstica, a amizade e o amor. O lugar mais inadequado de se buscar a felicidade
é justamente no mercado, pois este trabalha com a idéia de que esta busca nunca
termine. “Numa sociedade de compradores e numa vida de compras, estamos felizes
enquanto não perdemos a esperança de sermos felizes”, ou seja, de comprar mais.
E este sentimento de “felicidade” está inevitavelmente relacionado ao momento
que antecede as compras.
A sociedade de consumo que com
suas infindáveis seduções trabalha com a idéia de tornar as pessoas felizes,
atua num contexto orwelliano onde o “duplipensar” já não é mais visto como um
problema, pois a cultura do sacrifício estaria definitivamente morta. Apenas
para relembrar, “duplipensar” é a capacidade de guardar simultaneamente na
cabeça duas crenças contraditórias, e aceitá-las ambas. Na explicação de George
Orwell, inventor da expressão, “duplipensar” é saber e não saber, ter
consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente
arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as
contraditórias e ainda assim acreditando em ambas. O mercado que antes se
caracterizava por discutir as relações de produção, agora se expandiu para
abarcar todos os relacionamentos. “A famosa afirmação de Orwell, ‘quem controla
o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado’,
continua atual e extremamente plausível muito tempo depois de sua inspiração
original”.
Na visão de Bauman o mundo
líquido-moderno está num estado de revolução permanente, onde não se admite mais
as revoluções de uma só vez, os eventos singulares que constituem lembranças dos
tempos da modernidade “sólida”. O que se percebe é a banalização da idéia de
revolução: “os redatores de comerciais usam e abusam dela, apresentando qualquer
produto ‘novo e aperfeiçoado’ como ‘revolucionário’. Num mundo líquido-moderno,
afinal de contas, nenhuma atividade válida mantém a validade por muito tempo”. A
proliferação dos discursos de autoajuda é emblemática neste sentido. As falas e
os escritos de autoajuda revelam a era da curta validade.
Porém Bauman, no melhor do seu
estilo lembra que o homem é capaz de escolher. Reaprender a escolher pode
neutralizar o curto prazo de validade que arbitrariamente se instalou na
modernidade líquida.
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