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Entre guerras, derrotas, vitórias, o homem
sempre lutou pelo direito de ser feliz. Difícil dizer quem chegou perto ou
realmente conquistou esse direito…
Tom
Jobim e Vinicius de Moraes acertaram na medida, quando escreverem, “A
felicidade é como a pluma/Que o vento vai levando pelo ar/Voa tão leve/Mas
tem a vida breve/Precisa que haja vento sem parar”, na canção “A
felicidade”. Sinônimo de bem-estar, contentamento, êxito, bem-aventurança,
entre tantas outras emoções e sentimentos, a felicidade não é uma ideia
nova, mas nos dias de hoje tem se tornado quase uma obrigação ser feliz.
Imaginem que já há leis para decretar: não basta viver, é preciso ser feliz!
Com ou sem decreto, a felicidade permeia e se cruza com a história do ser
humano, conforme a jornalista Marleine Cohen, autora do livro A História da
Felicidade, uma palavra singular com sentido plural.
Conceitos
Na Grécia clássica,
felicidade era um tema muito em voga.
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Epicuro, por exemplo, dizia que a
felicidade era uma atividade cujo objetivo seria assegurar uma vida feliz.
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Para Sócrates, tudo aquilo que diz respeito à alma quando submetido à razão,
conduz à felicidade. Não foi aleatoriamente que ele cunhou a célebre frase
“conhecete a ti mesmo”.
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Na opinião de Aristóteles, discípulo de Platão, a
noção de felicidade é relativa à situação do homem no mundo, e aos deveres
que aqui lhe cabem.
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Já o seu mestre (Platão) afirma ser a felicidade mais
acessível ao sábio que mais facilmente basta a si mesmo. Mas é aquilo a que,
na realidade, deve tender todos os homens da cidade.
Ao iniciar as pesquisas
para o seu livro, Marleine deparou-se com uma infinidade de obras que
pretendiam ajudar o leitor a encontrar a felicidade. Optou por seguir outro
caminho. O trabalho final resultou em uma espécie de linha do tempo, que
esmiúça a ideia de felicidade desde a Grécia Antiga até os dias atuais. Faz,
por exemplo, uma analogia entre felicidade e outra necessidade básica do
homem, que é comer. “Felicidade é uma sequência de
contentamentos, pequenas saciedades. A pessoa
com muita fome vai para a mesa e devora tudo o que vê pela frente, sem estar
atenta ao gosto das coisas. Mas ela pode ir para a mesa apenas com apetite e
desfrutar do sabor de cada alimento e ao mesmo tempo estar em sintonia com
sua digestão e seu estado de espírito”, compara.

Influências
Um dos conceitos mais antigos sobre felicidade
era de que se tratava de predestinação, ou seja, era uma dádiva dos deuses
concedida aos heróis. “Diante da fome, da guerra, da peste devastando
comunidades inteiras; do medo dos trovões ou de qualquer outra manifestação
da natureza, feliz era o escolhido dos deuses”, conta Marleine. Então,
morrer em defesa da família ou pela pátria era o “suprassumo” da felicidade;
algo parecido com o que ocorre ainda hoje entre os islâmicos, em que muitos
sacrificam a vida com prazer.
A influência cultural grega é tão forte sobre
a cultura ocidental, que praticamente em todas as línguas indo-europeias
permanece a relação entre felicidade e sorte, destino e vontade divina.
Segundo a autora, o mesmo termo que designa felicidade traz embutido o
conceito de fortuna. A relação entre acaso e felicidade foi tão bem cunhada
pelos gregos antigos, que até hoje palavras como happiness (felicidade em
inglês) derivam de happ, que significa casualidade.
O contrário se dava do outro lado do mundo, em
meados de 2700 a.C., entre os povos orientais, que seguiam uma linha de
pensamento totalmente oposta. A felicidade, para eles, estava condicionada
ao autoconhecimento e ao equilíbrio mental, no caso, um exercício
essencialmente pessoal. Mais recentemente, na Idade Média, era preciso estar
próximo de Deus para ser feliz. Daí surge a religiosidade extrema, as
penitências, os jejuns e as peregrinações, como a de Santiago de Compostela,
que persiste até os dias atuais. “Ainda hoje, romarias são vistas como uma
travessia íntima, a maneira de o indivíduo se (re) encontrar consigo mesmo e
com o Deus que nele existe”, comenta Marleine.
Com o advento do Iluminismo, no século 18, a
felicidade passa a ser um direito natural do homem. “Passou a ter relação
com qualidade de vida; não se restringe a privilegiados. Os prazeres
sensoriais são valorizados”, afirma a autora. A questão é que não existe
felicidade plena, mas saciedade, e o homem por natureza é insaciável.
Segundo ela, há pelo menos 6,5 bilhões de fórmulas de felicidade no mundo,
uma para cada habitante do planeta. É importante a pessoa identificar qual
eco de tempos passados que cultiva.
Obrigação
No século 19, o conceito de felicidade ganhou
novo significado frente aos utilitaristas. Tornou-se uma questão de qualidade
de vida, o que repercute na atualidade. Além disso, é grande a importância
que o mundo atribui à ideia de bem-estar subjetivo, resquício da Psicologia
Positiva. “Pensamentos positivos geram bons frutos. Quando uma pessoa pensa,
‘vou conseguir aquilo’, ela já deu o primeiro passo para alcançar o que
deseja”, escreve Marleine.
Em contrapartida, a depressão de hoje é
resultante da pressão social pela felicidade. Socialmente, a pessoa tem a
obrigação de ser feliz. Quem não é feliz não tem qualidade de vida, não é
vencedor, não se deu bem na vida, é um fracassado. Quem não consegue se
adequar fica deprimido. A não felicidade seria a mola propulsora que dá
coragem e determinação para a pessoa querer mudar as coisas. Em outras
palavras, um mal necessário para o ser humano avançar.
Pela lógica do capitalismo, na sociedade
atual, quanto mais bens, mais a pessoa é (feliz). “Por definição, felicidade
significa contentamento, saciedade. O animal bebe, come, copula, fica
saciado. O ser humano, por sua vez, precisa disso tudo e um pouco mais. Para
ser, é preciso ter – ou melhor, acumular. Assim, quanto mais se possui, mais
se é”, completa Marleine.
Publicado na Revista mensal da
Kalunga
sob o título: "A Tal da felicidade"
Direito à felicidade
Em novembro/2010, o Senado Federal aprovou
a proposta de emenda constitucional (PEC), do senador Cristovam Buarque
(DF), que inclui entre os direitos sociais dos cidadãos a busca da
felicidade. O autor da PEC da Felicidade declarou que a busca pela
felicidade só será possível se os direitos essenciais estiverem garantidos.
Citou ainda um recente estudo feito por economistas brasileiros atestando
que fatores como renda, sexo, emprego e estado civil influenciam no nível de
felicidade. Fora do Brasil, muitos países adotam cada vez mais “índices de
felicidade” para avaliar o estado mental de seus cidadãos. Porém, a
felicidade é difícil de quantificar e, por ser a mais fugidia das emoções, é
difícil de manter. No mês passado, foi divulgado o Índice de Prosperidade Legatum dos países mais felizes do mundo, do Instituto Legatum. É a única
avaliação global do mundo de riqueza e bem-estar, ao contrário de outros
estudos que classificam os países por níveis reais de riqueza, satisfação de
vida ou de desenvolvimento. O Índice produz rankings com base nos
fundamentos da prosperidade dos fatores que irão ajudar a impulsionar o
crescimento econômico e proporcionar um grau maior de felicidade aos seus
cidadãos. Em tempo, o Brasil ficou em 45º lugar no ranking dos mais felizes.
Poderia ser pior… Veja os mais e os menos felizes

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