A melhor das Páscoas?

Apesar da sensação que há, misto de impotência e dúvidas ao acompanhar o sofrimento de muitas famílias, celebrei a Páscoa como a maioria, introspectivamente e, creio, irei lembrá-la até mais do que as outras.

O significado da "Páscoa", independentemente das religiões e dos apelos comerciais, é o renascer, o ressurgir, e por isso representa  também a purificação; o pressuposto de reexistir, é aperfeiçoar.

Os cristãos comemoram a  ressurreição, os judeus a liberdade do cativeiro; no Hemisfério Norte, festejam o inicio da Primavera, enfim, trata-se de um evento fraterno, e por si, emana a esperança, a crença no melhor e naquilo de bom que virá. Este ano, apesar da distância, nunca estivemos mais próximos dos filhos, dos pais, das pessoas que amamos. Nunca, em tempo algum, lembramos tanto os que se foram. E por que será?

O surgimento de uma  terrível doença não é responsável pelo que está havendo; fato de repensarmos a existência é. Talvez, em momento algum, vislumbrou-se a possibilidade de algo assim, influenciar na natureza humana, depredadora, fazendo-a refletir a destruição do planeta, como a Covid-19 destrói as nossas células. Pode ser, até o fim da pandemia, daremos conta dos erros e pensaremos nos acertos.

Então vamos pensar:
– em poucos meses, reduzimos as mortes nas estradas;
– os crimes violentos despencaram em 50%;
– o fechamento das fronteiras complicou a vida dos traficantes;
– não há insumos, armamentos e munições para alimentar o terrorismo, guerras e revoluções;
– o Himalaia, quem diria, voltou a aparecer para os indianos, porque os índices de poluição despencaram, até mesmo nos países alheios aos acordos ambientais;
– as praias estão vazias como antes do descobrimento;
– não há tédio no rush das grandes cidades;
– acreditamos mais na ciência do que nos políticos;
– economizamos água e mantimentos, gasolina, gás;
– estamos atentos aos menos favorecidos, com a dor alheia, e, a fome; e
– despertou-se um espírito solidário ímpar.
Por outro lado:
– aprendemos a cuidar mais da saúde, por meio da higiene;
– alambiques deixaram de fabricar cachaça para engarrafar álcool em gel, e agora, entendemos e mais, aceitamos com plenitude aquilo que coreanos e japoneses faziam e achávamos graça: o uso de máscaras.
Quem diria: estamos gastando as mãos de tanto lavá-las!

Quando  tudo isso passar, caso algo não dê errado pelo caminho, teremos hospitais mais equipados  em todas as cidades e profissionais da medicina treinados, como fosse em campo de batalha; os laboratórios estão vencendo a velocidade da burocracia, enfim, o sentido humanitário será outro.

Acreditamos  menos nas mentiras e apreciamos a verdade porque ela expõe o medo e, com ele, revelamos a importância e a graça de viver.
Pode ser, a Páscoa de 2020 seja o derradeiro translado para a paz, sabendo da nossa fragilidade.

Quanto  otimismo?  Se de fato aprendemos algo, inevitavelmente teremos que provar e mais cedo do que se imagina, colocar em prática o fruto desse aprendizado, porque quando a doença for embora, precisaremos remontar o mundo, como se fosse uma orquestra, com cada instrumento cumprindo a partitura, quiçá, em linda e harmoniosa melodia.

A Páscoa se foi, cumpriu-se o renascimento. E agora?

Autor: Rogério Bonato
Originalmente publicado no jornal GDia, em 14/04/2020
Figura: Páscoa Ovo – Cortesia Pixabay

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